sexta-feira, 20 de julho de 2012

Kris_Martin_T.F.F.S.H._2009


T.Y.F.F.S.H., 2009
hot air balloon, ventilators, Dimension variable
collection Mimi and Filiep Libeert, Courtesy Johann König, Berlin, Sies + Höke, Düsseldorf, Marc Foxx, Los Angeles
exhibition view Aargauer Kunsthaus Aarau, Photo: DOMINIC BÜTTNER, Zurich
 
http://www.sieshoeke.com/artists/kris-martin/

Kris Martin_I Am not an Idiot, 2010


I Am not an Idiot, 2010
found pebbles, dimensions variable
private Collection, Cologne
photo: ACHIM KUKULIES, Düsseldorf

http://www.sieshoeke.com/artists/kris-martin/

Zanini de Zanine_Casa Brasileira_27/07_GNT

   

Fernando Pessoa_Viajar?

"Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.
(...)
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos."

No Ceará, outro dia...

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Leandro Machado_De repente, classe C


Sou ex-pobre. Todos querem me vender geladeira agora. O trem ainda quebra todo dia, o bairro alaga. Mas na TV até trocaram um jornalista para me agradar.
Eu me considerava um rapaz razoavelmente feliz até descobrir que não sou mais pobre e que agora faço parte da classe C.
Com a informação, percebi aos poucos que eu e minha nova classe somos as celebridades do momento. Todo mundo fala de nós e, claro, quer nos atingir de alguma forma.
Há empresas, publicações, planos de marketing e institutos de pesquisa exclusivamente dedicados a investigar as minhas preferências: se gosto de azul ou vermelho, batata ou tomate e se meus filmes favoritos são do Van Damme ou do Steven Seagal.
(Aliás, filmes dublados, por favor! Afinal, eu, como todos os membros da classe C, aparentemente tenho sérias dificuldades para ler com rapidez essas malditas legendas.)
A televisão também estudou minha nova classe e, por isso, mudou seus planos: além do aumento dos programas que relatam crimes bizarros (supostamente gosto disso), as telenovelas agora têm empregadas domésticas como protagonistas, cabeleireiras como musas e até mesmo personagens ricos que moram em bairros mais ou menos como o meu.
A diferença é que nesses bairros, os da novela, não há ônibus que demoram duas horas para passar nem buracos na rua.
Um telejornal famoso até trocou seu antigo apresentador, um homem fino e especialista em vinhos, por um âncora, digamos, mais povão, do tipo que fala alto e gosta de samba. Um sujeito mais parecido comigo, talvez. Deve estar lá para chamar a minha atenção com mais facilidade.
As empresas viram a luz em cima da minha cabeça e decidiram que minha classe é seu novo alvo de consumo. Antes, quando eu era pobre, de certo modo não existia para elas. Quer dizer, talvez existisse, mas não tinha nome nem capital razoável.
De modo que agora elas querem me vender carros, geladeiras de inox, engenhocas eletrônicas, planos de saúde e TV por assinatura. Tudo em parcelas a perder de vista e com redução do IPI.
E as universidades privadas, então, pipocam por São Paulo. Os cursos custam R$ 200 reais ao mês, e isso se eu não quiser pagar menos, estudando à distância.
Assim como toda pasta de dente é a mais recomendada entre os dentistas, essas universidades estão sempre entre as mais indicadas pelo Ministério da Educação, como elas mesmas alardeiam. Se é verdade ou não, quem pode saber?
E se eu não acreditar na educação privada, posso tentar uma universidade pública, evidentemente. Foi o que fiz: passei numa federal, fiz a matrícula e agora estou em greve porque o campus cai aos pedaços. Não tenho nem sala de aula.
Não que eu não esteja feliz com meu novo status de consumidor, não deve ser isso. (Agora mesmo escrevo em um notebook, minha TV tem cem canais de esporte e minha mãe prepara a comida num fogão novo; se isso não for felicidade, do que se trata, então?)
O problema é que me esforço, juro, mas o ceticismo ainda é minha perdição: levo 2h30 para chegar ao trabalho porque o trem quebra todos os dias, meu plano de saúde não cobre minha doença no intestino e morro de medo das enchentes do bairro.
Ou seja, ao mesmo tempo em que todos querem me atingir por meu razoável poder de consumo, passo por perrengues do século passado. Eu e mais de 30 milhões de pessoas -não somos pobres, mas classe C.
Deixa eu terminar por aqui o texto, porque daqui a pouco vão me chamar de chato ou, pior, de comunista. Logo eu, que só li Marx na versão resumida em quadrinhos. Fazer o quê, se eu gosto é de autoajuda?

Leandro Machado, 23, é estudante de letras na Universidade Federal de São Paulo, mora em Ferraz de Vasconcelos (SP) e escreve no blog Mural, da Folha

Antonio Prata_Sapatos

Sexta a tia Clara ligou avisando: se eu quisesse procurar pelos sapatos do tio Estevão tinha que chegar cedo, no dia seguinte. À tardinha vinham os filhos, levariam os pertences que lhes interessassem e o resto seria doado ao Lar Escola São Francisco. Nove da manhã de sábado eu tocava a campainha, pronto para começar a minha busca.
Poucos objetos estiveram mais ligados a uma pessoa do que aqueles sapatos ao meu tio Estevão. Dos 84 anos que passou sobre a Terra, 60 foram calçando o mesmo modelo. Difícil descrevê-los, não porque tivessem algo de excêntrico, mas por serem demasiadamente comuns -se é que algo pode ser demasiadamente comum: eram de couro preto, quatro furos pro cordão, sola de madeira, salto de borracha. No colegial, quando aprendi sobre o mundo inteligível de Platão, aquele no qual residiriam os ideais de todas as coisas, logo pensei nos sapatos do tio Estevão, os paradigmáticos sapatos do tio Estevão pairando lá no alto, muito acima dos canos altos, Melissinhas, escarpins e outras sombras projetadas na balbúrdia da caverna.
Meu tio não gostava de balbúrdia. Casou-se com a namorada da escola, teve um filho e uma filha, foi fiel à esposa, à marca de desodorante, ao nó da gravata, à sopa no jantar -e, claro, aos sapatos. Descobriu-os numa viagem à Franca, a trabalho, em 1952. Muitos anos atrás, num Natal, contou-me que bastou calçá-los para saber que "aquela questão, pelo menos, estava resolvida". Lembro que achei graça em sua postura, como se a vida consistisse numa série de questões a serem resolvidas, uma lista na qual fôssemos ticando as colunas. Casamento: risca. Carreira: risca. Filhos: risca. Sapatos: risca.
Como o trabalho o levava todo ano à Franca, tio Estevão comprava um par a cada viagem e assim viveu tranquilo -pelo menos, no que se referia àquela "questão"- até 1990, quando o mercado abriu-se para o mundo e a fábrica, incapaz de competir com a concorrência chinesa, faliu. O dono, a essa altura já amigo do meu tio, telefonou-lhe para lamentar-se, para maldizer o governo, os chineses, a vida e avisar que os últimos pares do estoque eram seus. Vinte e dois pares, um presente por 38 anos de fidelidade.
Meu tio brincava, desde então, para desespero da tia Clara, que quando o último par se gastasse ele morreria. Segundo minha tia, na segunda-feira à noite ele sentou-se na cama, olhou os sapatos em petição de miséria e, calmo, como se viesse há muito se preparando para aquele momento, disse: "Já era". No dia seguinte, comentou, iria provar uns mocassins -mas não chegou a ver o dia seguinte.
Na manhã de sábado, revirei cada gaveta, cada armário, cada cômodo da casa. Tinha a esperança de que, em sua última noite, meu tio não tivesse jogado no lixo os sapatos que o acompanharam pela vida inteira, houvesse guardado ao menos um pé, como lembrança.
Por que eu queria tê-lo? Seria um símbolo da persistência? Da teimosia? Da busca pela imanência em meio à transitoriedade? Não sei. Não os encontrei. Claro. Era de se esperar que um homem pragmático a ponto de passar 60 anos com o mesmo sapato não fosse de guardar velharias como souvenirs. As questões, quando se resolvem, se resolvem. Morte: risca.

Folha_18.07

quinta-feira, 31 de maio de 2012

terça-feira, 29 de maio de 2012

sábado, 26 de maio de 2012

quarta-feira, 23 de maio de 2012

domingo, 20 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

Salvador hoje...


Livro_Rio

Rubem Fonseca_Desventuras de um dendrólatra


É possível existir alguém que não goste de árvore? Não falo do sujeito, índio ou não, que faz a queimada para plantar mandioca, soja, cana-de-açúcar ou lá o que for. Esse vai direto para o inferno, mesmo jurando para São Pedro que fazia isso para conseguir o leite das crianças. Falo das pessoas que me cercam, que vivem na minha cidade e não têm qualquer razão para destruir, desprezar, ou até mesmo ignorar a existência das árvores.
O poeta polonês Czeslaw Milosz tem um poema denominado “Anelo” (ou “Desejo ardente”) que diz “não quero ser um deus ou um herói, apenas tornar-me uma árvore, crescer um longo tempo, e não ferir ninguém”.
São assim as árvores. Não ferem ninguém, e ainda dão sombra e frutos. Os druidas acreditavam que quando nos aproximávamos de uma árvore, nos acercávamos de um ser sagrado que nos podia ensinar sobre o amor e nos dar conhecimento e sabedoria. O termo druida tem origem céltica e acredita-se que seja um cognato da palavra grega drus que significa carvalho, essa árvore de grande porte.
Nosso nome, brasileiro, é proveniente de uma árvore de cerne vermelho, manchado de escuro, o pau-brasil, de onde veio o nome do nosso país. Somos, assim, parecidos com os druidas, eles se relacionam com o carvalho, nós com o pau-brasil. Apenas não acreditamos, como eles, que as árvores possam nos transmitir conhecimento ou sabedoria.
Moro numa praça onde periodicamente a Fundação Parques e Jardins planta algumas árvores, de maneira tão precária, que morrem em pouco tempo. São sustentadas por pedaços finos de bambu, que mal se mantêm em pé e não têm nenhuma proteção de metal em torno. Da última vez, plantaram oito árvores dessa maneira tosca e apenas uma sobreviveu, um ipê, que cresceu não obstante alguns mendigos bêbados, malucos ou vândalos cretinos, quebrassem constantemente os seus galhos.
Notando que ela não resistiria por muito tempo, pois a sua raiz não estava muito firme, telefonei para a Fundação Parques e Jardins. Dei o meu nome e endereço e falei da situação periclitante daquela árvore,
expliquei que ela necessitava de uma proteção de metal, como as que existem na Praça Nossa Senhora da Paz. Eles prometeram uma providência. Um mês depois, como nada tivesse ocorrido, liguei novamente e disse que estava disposto a pagar pela proteção de metal. Aquilo deixou a pessoa que me atendeu meio perturbada, pediu para eu esperar na linha pois ia consultar alguém. Quando voltou disse que eles mesmos providenciariam a proteção.
Sei que a Fundação Parques e Jardins é integrada por pessoas dedicadas, que têm o maior interesse em preservar as árvores da cidade. Entretanto, a Fundação dispõe de um orçamento tão parcimonioso que tem dificuldades para atender às inúmeras solicitações que lhe fazem.
Toda noite, munido de várias garrafas grandes de plástico cheias de água, eu ia regar o ipê. Mas a sua raiz continuava bamba. Decidi solicitar o auxílio da BodyTech, uma academia de ginástica, que anunciava, com cartazes, que estava tomando conta da praça. Consegui que uma petição, assinada por vários sócios, fosse enviada à direção da academia solicitando providências em relação àquela árvore. Aconteceu alguma coisa? Nada. Aqueles cartazes da academia eram apenas propaganda.
Então decidi contratar uma pessoa para tomar conta da árvore. Esse indivíduo colocou vários quilos de terra adubada na raiz da árvore, improvisou uma proteção de madeira em torno do seu caule e borrifa, periodicamente, líquidos protetores em suas folhas.
Devido à influência do jornalista Agostinho Vieira, que tem uma coluna no GLOBO, Economia Verde, a Fundação Parques e Jardins colocou em torno da minha árvore uma proteção metálica.
Sei que existe quem diga que é uma coisa idiota fazer esse estardalhaço por causa de uma árvore. É devido a esse tipo de pensamento que uma, duas, três, milhões de árvores são incessantemente destruídas em nosso país. E isso me preocupa, quer seja um milhão de árvores, quer seja apenas uma. Sou um dendrólatra incorrigível.
Não posso deixar de citar trecho de um poema de Joyce Kilmer: “I think that I shall never see a poem lovely as a tree. [...] Poems are made by fools like me, but only God can make a tree.” (Em tradução livre: “Creio que nunca verei um poema lindo como uma árvore... Poemas são feitos por idiotas como eu, mas uma árvore só pode ser feita por Deus.”).
Essa praça, acrescento eu agora, deve ter todas as suas árvores, ou pelo menos a imensa maioria delas, destruídas pelo nocivo planejamento do metrô. A Praça Nossa Senhora da Paz em Ipanema vai sofrer a mesma violência. Realmente, como disse o poeta e filósofo alemão Schiller, “contra a estupidez humana até os deuses lutam em vão”. Mas quero deixar claro que não sou contra o metrô, como meio de transporte. Sou contra a destruição das árvores.

O  Globo


13/05/2012

sábado, 12 de maio de 2012